Meu primeiro jogo de Copa ao vivo em um estádio

Por Antonio Carlos Monteiro
Fotos: Cristina Mochetti e Karina Mochetti.

Tony Monteiro, jornalista e torcedor do Santos Futebol Clube realizou um antigo sonho: assistir a um jogo de Copa do Mundo! Leia abaixo como foi essa experiência única nas palavras do próprio Tony!

4 de junho de 2012

A viagem rumo à Europa começou com um traslado de ônibus de minha cidade, Campinas, no interior de São Paulo, para o Aeroporto de Guarulhos, incluiu um voo de onze horas para Paris onde passamos a tarde matando a saudade da nossa filha que lá morava há seis meses, uma viagem de trem atribuladíssima a Londres e lá um traslado mais maluco ainda de metrô entre a estação do trem e um ponto próximo ao hotel em que ficamos, colado ao lendário estádio de Wembley – houve uma inundação no metrô londrino o que fez um trajeto de 30 minutos levar mais de uma hora.

Já era noite do dia seguinte quando saímos da tal estação. Perguntei a um funcionário onde ficava o hotel, ele me apontou um McDonalds ali adiante e disse que era naquela direção, “eight minutes walking“. OK, mesmo carregado de malas e de uma barraca de camping (uma das paradas era no famoso “Download Festival” para assistir Metallica comemorando vinte anos do “Álbum Preto” e Black Sabbath com Ozzy, Geezer e Tony no mesmo palco), dava pra andar oito minutos.

Meia hora depois, cheguei à conclusão que algo estava errado. Pedi uma informação para uma mulher num carro que parou no farol e ela nos ofereceu carona. Era um Mercedes-Benz caindo aos pedaços, a mulher falava espanhol e o motorista, que não abriu a boca, ouvia uma música árabe no som do carro. Sinistro… Mas, no fim, nem era sequestro pra transplante de órgãos (ah, se eles soubessem a quantas anda meu fígado…) e eles nos deixaram direitinho na portaria do hotel.

Final feliz, mas fiquei pensando que diabos levara aquele primeiro inglês a me dizer que levava oito minutos uma caminhada que, de fato, era cinco vezes maior.

19 de junho de 2014

Tava na internet: quem tinha ingresso para o jogo Inglaterra e Uruguai em São Paulo pela Copa do Mundo 2014 com entrada pelo setor oeste deveria descer na estação Artur Alvim do metrô e caminhar 800 metros. Bico! Mesmo em forma (e redondo não é uma forma??) conseguiria atravessar essa distância facinho.

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De cara, uma má notícia: olha o estádio lá no alto! Ou seja, tome subida… Tudo bem, dá pra encarar… Mas até ali não tem 800 metros, hein! E o “padrão Fifa” apareceu assim que pusemos o pé na rua – e não tem nada de ironia disso. Havia monitores (todos absurdamente simpáticos e felizes) desde a saída do metrô até você colocar o traseiro no seu assento. E a caminhada ainda tinha um componente extra: com o trânsito completamente bloqueado, andávamos pela rua. E na calçada uma multidão ficava simplesmente observando a gente andar. Sabe o povo que fica nas esquinas assistindo a São Silvestre no final do ano? A mesma coisa, só que com corredores mais lentos.

No fim das contas, quatro quilômetros depois e com direito a uma escadaria com uns 50 degraus, estávamos dentro do Itaquerão. E eu pensando que a fita métrica do sujeito que escreveu na internet que eram 800 metros deve ter sido feita na mesma fábrica que o relógio daquele londrino fanfarrão… A arena Arena São Paulo? Arena Corinthians? Vamos deixar de frescura… Podem botar o nome pomposo que quiserem, o lugar vai ser eternizado como Itaquerão e ponto final.

E que lugar legal! A primeira coisa que vem à cabeça de quem está acostumado a ver show de rock em estádio é como deve ser bacana ver uma apresentação lá. O fato de o gramado ficar bem próximo às arquibancadas (nada de pista de atletismo que nunca é usada ou coisa parecida) faz com que a visibilidade seja perfeita de todo o estádio. E a proximidade com o metrô (vá lá, quatro quilômetros até que não é tão longe) facilita muito as coisas – afinal, o Morumbi, local em que são realizados shows de grande porte em São Paulo, só é servido por ônibus que, ainda assim, te obrigam a uma caminhada maior ainda. Ir de carro é uma excelente pedida apenas para quem acha uma ideia sensacional pagar R$ 100 para um sujeito não vandalizar seu automóvel.

No estádio, tudo funcionava de uma forma impressionante. Pegar uma bebida era muito fácil, os banheiros resistiram em condições razoáveis de limpeza até depois do jogo (normalmente, no intervalo já estão uma embaixada do inferno), os voluntários tinham todas as informações na ponta da língua. A festa Mas o mais divertido era o clima de festa.

A organização centralizou a torcida da Inglaterra atrás da meta em que aconteceram os dois primeiros gols e a do Uruguai do outro lado. Detalhe: os ingleses ficaram o tempo todo em pé e enchendo o tanque. Essa concentração garantiu muitos momentos de festa, apesar de haver torcedores dos dois times em vários outros setores do estádio – fiquei à frente de três ingleses, que quase morreram quando o Rooney fez o gol e foram embora furiosos, e à frente de uma família uruguaia. Só houve um momento, já no final do jogo, em que bem próximo de onde estava um inglês e um uruguaio resolveram se estranhar. Apareceram dois “stewards” (seguranças), sendo um deles mulher, que não tinham a mínima ideia do que fazer. Sorte que a briga acabou sozinha.

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E, meus amigos, aquela cerimônia inicial, em que os times entram com as bandeiras e cantam os hinos, é um troço de emocionar quando vista pessoalmente. Ali dá pra ver a grandeza de tudo aquilo, o quanto o esporte é importante e, principalmente, justifica todo o empenho e verba envolvidos para fazer tudo funcionar.

O jogo

O jogo todo mundo viu. Mas ele ganha outros contornos quando visto ao vivo. Dava pra perceber na movimentação, nos gestos, nos gritos dos jogadores o quanto aquilo era importante para cada um – estavam todos jogando a vida ali, por assim dizer. Os protagonistas surgiram desde o início: Rooney, querendo fazer seu primeiro gol em Copa do Mundo, liderava as ações do time inglês, enquanto Suarez, voltando de contusão e querendo calar os detratores, causava do outro lado.

Aliás, o camisa 9 do Uruguai merece um capítulo à parte. Ele é tudo, menos um esportista. Falando claro, joga com todas as armas que tem, mesmo as sujas. Aos 30 minutos do primeiro tempo, já tinha dado uma advertência verbal e, depois, mostrado o cartão amarelo para o bandeirinha. Quando a bola está longe, ele provoca, fala o tempo todo, inferniza, enfim – no início do segundo tempo, chegou a jogar uma segunda bola em campo, só pra encher. Só que, se por um lado tem caráter questionável, por outro joga muita bola! Ver um centroavante se movimentando, chamando o jogo, fugindo da pancadaria dos zagueiros e tentando o gol de todas as formas dá uma inveja enorme, principalmente quando a gente lembra que na mesma posição da Seleção Brasileira está aquele sujeito que “não fred e nem cheira“…  

O domínio o jogo mudou de mãos várias vezes ao longo da partida. E foi justamente quando o negócio estava equilibrado que Suarez achou o primeiro gol, de cabeça. A festa que se seguiu é difícil de descrever em palavras… E se o Uruguai começou apertando o segundo tempo (foram vários escanteios seguidos), logo a Inglaterra reverteu a situação e começou a morar na área uruguaia.

E aí apareceu Muslera. O goleiro uruguaio fez pelo menos um milagre num chute de Rooney a queima-roupa, além de várias outras defesas importantes. Antes disso, em meio à cera e à catimba uruguaias, Alvaro Pereira , após um carrinho criminoso, recebeu um joelhaço involuntário de Sterling na cabeça e caiu desacordado. Só que ninguém viu! Só foram notar quando alguém mexeu no sujeito e ele girou como um saco de cimento jogado no chão…

Quando Rooney empatou, o mundo veio abaixo. A torcida inglesa é mais ou menos que nem o partido comunista: são seis caras, mas fazem barulho por seiscentos. Os três ingleses à minha frente quase tiveram um AVC cada. Correram escadaria abaixo, se abraçaram, beberam… Durou dez minutos a alegria. Para ser preciso, até o momento em que Muslera quebrou uma bola para o ataque, Gerrard raspou de cabeça e Suarez – sempre ele… – meteu o pé nela como se não houvesse amanhã.

No replay dá pra ver que o goleiro inglês nem consegue levantar os braços em direção à bola – acho até que ele ficou torcendo para que ela não batesse na sua cara. Uma pressãozinha básica dos ingleses deixou claro que eles estavam entregues. E nem cinco minutos de acréscimos foram suficientes para eles reverterem a situação.

Mama, I’m coming home

Tudo que sobe tem que descer, tudo que vai tem que voltar. E aí ficou a dúvida: 62 mil pessoas que chegaram ao longo do dia ao estádio sairiam juntas de lá. O metrô, meio de transporte escolhido pela grande maioria, daria conta dessa quantidade de gente? Duvido… E vamos lá marchar os quatro quilômetros de volta, dessa vez com muita gente pedindo ingressos usados ou copos usados no estádio como souvenires. Acha que eu vou dar meu ingresso pra você, pangaré? Vai achando…

A caminhada ia num ritmo lento mas constante. Chegando na estação, uma diminuída na passada mas parar, jamais! E aí, o milagre: passamos as catracas, chegamos à plataforma (que estava relativamente vazia), o trem encosta em seguida e lá fomos nós, com conforto, rapidez e tranquilidade. Confesso, foi uma surpresa imensa – jamais imaginava que isso fosse capaz de acontecer no meu país. Em resumo, deu tudo muito certo.

Estava torcendo para a Inglaterra (que rodaria oficialmente no dia seguinte graças à vitória da Costa Rica sobre a Itália), mas, diante de tudo que vimos acontecer, o resultado do jogo foi um detalhe. E provamos ao mundo que somos capazes de fazer uma Copa com “padrão Fifa”, ao contrário de tantos que duvidavam.

Sim, #TeveCopa. E foi legal pra caramba!

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